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February 24, 2026

A experiência estética no aprendizado: quando aprender sai do operacional e passa a fazer sentido

Por décadas, aprender dentro das empresas foi (e ainda o é, em alguns casos) tratado como um processo funcional: transmitir informação, medir retenção, comprovar conclusão. Nessa lógica, aprender se tornou sinônimo de consumir materiais, cumprir cargas horárias e concluir trilhas.

O problema é que o cérebro humano, nunca aprendeu assim. Antes de ser um ato cognitivo, aprender é uma experiência. Envolve o corpo, os sentidos, as emoções e a forma como atribuímos significado ao que encontramos. Toda aprendizagem relevante passa, inevitavelmente, por camadas sensoriais, emocionais e simbólicas, mesmo quando tentamos reduzi-la a processos racionais.

Experiência estética: condição de aprendizagem profunda

Esta análise nos leva ao conceito de experiência estética, mais difundido em artes e filosofia, ele é compreendido com um estado subjetivo, com efeitos observáveis.  

E é evidente, a experiência estética não se limita à contemplação do belo. Pode surgir do impacto, do estranhamento, da curiosidade ou até do desconforto. O que a define não é a forma, mas o nível de envolvimento que a provoca.

Raquel Moraes, head de design da Afferolab, completa explicando que viver uma experiencia estética acontece “ao ler um livro que nos move e com isso a gente se distancia do eu para ter novas perspectivas".

Quando vivenciamos uma experiência estética:

  • a atenção se aprofunda;
  • o foco sai do “eu automático” e se desloca para o encontro com algo que nos afeta;
  • o cérebro entra em um estado de maior integração entre sensação, emoção e cognição.

Esse estado é o terreno fértil onde o aprendizado acontece.

Do ponto de vista neurocientífico, o cérebro tende a registrar com mais força aquilo que é vivido como experiência significativa. Quanto mais sentidos são ativados, maior a intensidade do registro.

É por isso que memórias ligadas a cheiros, sons ou texturas, como o cheiro de bolo da avó ou de cabeça de bebê, relembra Raquel, permanecem vivas por anos. Os sentidos funcionam como amplificadores da experiência.

Quando uma vivência envolve diferentes estímulos sensoriais e emocionais integrados, ela cria mais “portas de entrada” para a memória. O resultado é um aprendizado mais profundo, mais durável e com maior capacidade de ser recuperado e aplicado.

Em outras palavras: o cérebro aprende melhor quando está envolvido, não quando está exposto.

Do consumo automático ao aprendizado significativo (Skill-based)

Grande parte das iniciativas de T&D falha não por falta de conteúdo, mas por excesso de neutralidade. Conteúdos excessivamente funcionais, lineares e desprovidos de experiência tendem a ser processados de forma superficial, acionando pouco (ou nenhum) envolvimento emocional e baixa retenção.

A experiência estética rompe esse padrão porque desloca o aprendiz do modo automático para um estado de presença, sintonia e motivadores que ativam emoções. É nesse estado que:

  • a curiosidade se mantém ativa;
  • a atenção se sustenta por mais tempo;
  • o aprendizado sai da caixa de informações (e avisos) para ser transformador.

Jussara Trindade, professora da Pós-graduação da PUC RS, destaca que a experiência estética amplia o sentido das coisas. Isso significa que aprender passa ao largo da ideia de adquirir uma nova informação, o aprendizado acontece quando o conteúdo reposiciona essa informação dentro da própria história, do repertório e da visão de mundo de quem aprende.

Esse processo de atribuição de sentido é decisivo. Sem ele, o conteúdo até pode ser compreendido, mas dificilmente será incorporado, lembrado ou aplicado.

A aprendizagem nasce do desejo, e o desejo nasce da liberdade. Nenhum ser humano aprende porque mandam. Aprende porque algo, em algum ponto, o toca, porque vê sentido, porque sente progresso, porque se reconhece em um grupo que o valida.

Alessandra Lotufo, MD da Afferolab.

Emoção, curiosidade e atenção profunda: o tripé do aprender que permanece

No contexto da aprendizagem, a experiência estética cria as condições ideais para três elementos fundamentais:

  • Emoção, que sinaliza relevância e ativa os sistemas de memória;
  • Curiosidade, que sustenta o engajamento e a exploração;
  • Atenção profunda, que permite integração e criação de significado.

Esses elementos estão diretamente ligados à neuroplasticidade: capacidade do cérebro de criar e fortalecer conexões neurais a partir da experiência. Quanto mais significativa e envolvente é a vivência, mais fortes tendem a ser essas conexões.

Por fim

No fundo, a experiência estética no aprendizado nos convida a uma mudança profunda de perspectiva. Em vez de perguntar “como entregar mais conteúdo?”, passamos a perguntar:

Como criar experiências de aprendizagem que façam sentido, envolvam e transformem?

Para o atual momento, onde as organizações operam em um mundo marcado por ambiguidade, velocidade e mudança constante, aprender é uma alavanca estratégica de performance e adaptação.

E nenhuma estratégia de desenvolvimento se sustenta ignorando a dimensão sensível, simbólica e experiencial do aprender.

Aprender é entender, sentir, perceber, conectar e transformar.

Quando isso acontece, o desenvolvimento de competências deixa de ser uma obrigação imposta e passa a ser um movimento natural, contínuo e profundamente humano, que causa impacto proposital.

Mais do que uma consultoria de treinamentos, atuamos como um ecossistema de aprendizagem, promovendo experiências de alto impacto, significativas, memoráveis e feitas para melhorar a vida de gente como a gente.

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